Preservar: um hábito em extinção

© Global Garbage Brasil

© Global Garbage Brasil

Gabriel Sousa Conzo Monteiro
Biólogo, mestre em Oceanografia Biológica

O consumo desenfreado é, hoje em dia, um comportamento comum da sociedade moderna. Alguns questionam a origem e as razões para a manutenção deste comportamento, e muitas respostas apontam tanto para o incentivo quanto para a “informação” provinda da indústria. Será que a alienação científica da sociedade contribui para um consumo cada vez mais excessivo e até desnecessário? Qual o papel e o que pode fazer a ciência para reduzir este problema? A sociedade sabe, com propriedade, quais desdobramentos ambientais tem seu comportamento de consumo?

A indústria visa vender seus produtos, e é claro que toda sua comunicação visa salientar as qualidades de seu produto. É esperado que assuntos polêmicos ou desdobramentos prejudiciais ao meio ambiente não sejam divulgados por este setor, que muitas vezes utiliza-se de influências políticas e financeiras passar uma boa imagem de seu produto. O plástico é um bom exemplo para ilustrar este cenário. As pessoas sabem que sacolas plásticas matam tartarugas marinhas (e ponto final). A ciência sabe que este problema não é nem a ponta do iceberg.

Os plásticos, quando vão parar no mar, são fragmentados por processos físico-químicos, no entanto não degradam, apenas reduzem de tamanho. Com o passar do tempo estes fragmentos adsorvem Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs), como por exemplo, agrotóxicos, e são ingeridos por diversos animais: desde pequenos crustáceos, passando por peixes sendo encontrados até em estômagos de grandes cetáceos. Por processos de bioacumulação e biomagnificação, os níveis desses poluentes tendem a aumentar de acordo com o nível trófico, ou seja, quanto mais alto o nível trófico, maior é a concentração desses poluentes. Já foi comprovada a incidência de câncer, desregulação hormonal e até infertilidade em animais expostos a altas concentrações de POPs. Seres Humanos, topo da cadeia trófica, deveriam se preocupar mais com esta questão, não acham? Fica a pergunta: por que informações neste nível de detalhamento e simplicidade não alcançam a sociedade não acadêmica? A academia está careca de saber disso, por que não se manifesta?

Por uma questão cultural, a maioria dos pesquisadores acadêmicos não sabe se comunicar com o público não acadêmico. Isso acontece pela falta de prática em traduzir o conhecimento científico em linguagem mais simplificada ou então em saber como despertar a curiosidade das pessoas a respeito daquele determinado assunto ou pesquisa. Existem ferramentas como Blogs, YouTube e Facebook que permitem esta comunicação mais direta. Cabe aos acadêmicos, buscar auxílio para que a comunicação com as pessoas ocorra de forma efetiva, evitando a alienação científica da sociedade.

Muitos estudos desenvolvidos no Brasil têm seu financiamento vindo de contribuições públicas, ou seja, todos, de certo modo, colaboram com o desenvolvimento da pesquisa brasileira. Mas será que a sociedade sabe, de forma satisfatória, sobre os mais diversos resultados destas pesquisas? Se a maioria dos pesquisadores acadêmicos se dedicasse a compartilhar de forma simplificada seus estudos, sua vivência e seu conhecimento, estaria ajudando a preservar não só as diversas espécies de animais e vegetais, mas também um hábito que está na lista de extinção a muito tempo: o hábito de preservar. A informação faz com que as pessoas ponderem suas atitudes e sejam mais responsáveis por elas.

Uma ideia sobre “Preservar: um hábito em extinção

  1. …a lamentável verdade. A grande massa humana continua desligada da importância da preservação real. Pouca gente quer se envolver diretamente , “deixa que alguém vai estar trabalhando nisso”…e nem todos os envolvidos em preservação são ‘sérios’ e isentos. Muita hipocrisia reina nesse meio. E a Natureza dando a resposta…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *