No Recife, infância perdida na lama e no lixo

A história dos meninos cujo cotidiano é catar latas na imundície do Canal do Arruda

Paulinho quase se confunde com os entulhos que tomam conta do Canal do Arruda, numa cena que choca e revolta Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Paulinho quase se confunde com os entulhos que tomam conta do Canal do Arruda, numa cena que choca e revolta
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Wagner Sarmento e Marina Barbosa
cidades@jc.com.br

Eles nadam onde nem os peixes se atrevem. De longe, suas cabeças se confundem com os entulhos. Pela falta de quase tudo na terra, mergulham no rio de lixo atrás da sobrevivência. Lá sim tem quase tudo: latinhas, garrafas, papelão, móveis velhos, restos de comida, moscas, animais mortos. Menos dignidade. Lá, no Canal do Arruda, Zona Norte do Recife, o absurdo é rotina. Anfíbios e miseráveis catam sonhos onde o pesadelo é retrato soberano. São três meninos da comunidade Saramandaia, melados até o pescoço da lama do abandono, numa área que o prefeito da capital, Geraldo Julio (PSB), elencou como prioridade de sua gestão e que, até agora, não viu resultados senão promessas.

Paulinho nada com dificuldade em meio ao lixo e à lama Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Paulinho nada com dificuldade em meio ao lixo e à lama
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Geivson fica perdido em meio ao rio de lixo Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Geivson fica perdido em meio ao rio de lixo
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

O sol inclemente não intimida. É preciso aproveitar a maré baixa, quando os resíduos se acumulam. A cena choca, intriga, envergonha. Em pleno 2013. Em plena capital pernambucana. Aos olhos de todos. O Canal do Arruda, foz de boa parte do lixo recifense, é a mina de ouro de Paulo Henrique Félix da Silveira, 9 anos; Tauã Manoel da Silva Alves, 10; e Geivson Félix de Oliveira, 12, unidos pelo sangue, pela necessidade e pela indiferença do poder público.

Paulinho joga a lata colhida para Geivson, que a coloca na sacola Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Paulinho joga a lata colhida para Geivson, que a coloca na sacola
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Moram em dois barracos na comunidade de Saramandaia, também na Zona Norte, e não hesitam em entrar no fosso. Antes, era só para tomar banho, diversão infantil ocasional. Há mais de ano, passou a ser ganha-pão. Paulinho via as cerca de cem famílias que trabalham com reciclagem na região e decidiu tomar o mesmo caminho. Encontrou seu nicho, o pior de todos, e arrastou os primos.

De longe, Paulinho quase não é notado. Parece parte daquele monte de entulhos Foto: Diego Nigro/JC Imagem

De longe, Paulinho quase não é notado. Parece parte daquele monte de entulhos
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Paulinho, Galego e Geivson, embora exemplos radicais da realidade, não estão sozinhos. De acordo com o perfil dos catadores brasileiros elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), baseado no Censo 2010, 3,6% dos 20.166 pernambucanos que trabalham com reciclagem têm entre 10 e 17 anos. São, oficialmente, só 726 crianças e adolescentes no Estado que tiram seu sustento do lixo. Nas cifras do trabalho infantil em geral, o número sobe para 1.329.229. Na faixa etária dos pequenos catadores de Saramandaia, até 13 anos de idade, há 665.500 pernambucanos trabalhando, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De longe, Paulinho quase não é notado. Parece parte daquele monte de entulhos Foto: Diego Nigro/JC Imagem

De longe, Paulinho quase não é notado. Parece parte daquele monte de entulhos
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Galego é o único que não entra no canal. Tem medo Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Galego é o único que não entra no canal. Tem medo
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

O trio se acotovelava entre dejetos mil para catar latas de alumínio e garantir o alimento de duas famílias com, ao todo, 18 pessoas. Nadava em meio a tudo que a cidade vomita. Paulinho, o menor e mais astuto dentro d’água, tapava a boca com veemência. Tinha noção exata do risco que corria. Ainda não sabe ler, mas conhece da vida o suficiente para não deixar entrar uma gota sequer daquela lama de cheiro insuportável e chamariz de doenças. Febre e diarreia são constantes.

Meninos de Saramandaia sobrevivem do que catam no lixo Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Meninos de Saramandaia sobrevivem do que catam no lixo
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

O lixo lhe cobria o pescoço. A cabeça erguida com dificuldade denunciava que ele estava ali, quase sumindo entre materiais recicláveis, comida descartada, brinquedos quebrados, roupas velhas, sacolas e tudo mais que se possa imaginar. Parecia parte daquilo. Geivson, o mais velho, acompanhava o primo Paulinho na missão inglória e diária.

Um saco cheio de lata vale cerca de R$ 5 Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Um saco cheio de lata vale cerca de R$ 5
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Tauã, chamado por todos pelo apelido de Galego e irmão de Geivson, foi o único que não teve coragem de se embrenhar no meio do canal. Na beira, um pé lá e um pé cá, cumpria sua função na engrenagem do absurdo: recolhia as latas catadas pelos outros dois. Quando precisava ir mais no fundo para pegar algo que caiu, reclamava: “Não quero me sujar”. Juntava tudo em um saco de farinha que é quase de sua altura.

Paulinho é o mais astuto dentro do canal Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Paulinho é o mais astuto dentro do canal
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

O trabalho costuma durar horas, até a maré permitir. Findo o serviço, lavam-se no lado menos poluído do fosso. “Tem que se limpar, né?”, frisa Paulinho, banhado de inocência. À tarde, eles trocam o que cataram num galpão de reciclagem localizado em Saramandaia mesmo. As latas saem tão sujas de lama que nem o depósito aceita. É preciso lavá-las antes. “A gente tira uns R$ 5 por dia”, gaba-se Geivson. Em dia ruim, o esforço rende apenas R$ 1. Paulinho queria comprar biscoitos. Galego e Geivson prometeram entregar o dinheiro à mãe. Invejaram o primo.

Num mesmo barraco, moral 10 pessoas. Numa mesma cama, dormem seis Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Num mesmo barraco, moral 10 pessoas. Numa mesma cama, dormem seis
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

No rio de lixo, encontram de tudo: bola, carrinhos e bonecas; galinha, cachorro e gado morto. Até jacaré já foi visto pelas cercanias, prova de que o risco vem de todos os lados.

Apesar de todas as dificuldades, os garotos não perderam a capacidade de sonhar Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Apesar de todas as dificuldades, os garotos não perderam a capacidade de sonhar
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Algumas feridas abertas na pele desvelam doenças trazidas pela água suja – Galego tenta esconder com a mão uma dermatite perto da boca; os outros têm pés e canelas cortadas por cacos de vidro. Outras feridas, invisíveis, se revelam numa conversa mais demorada. “Se a vida é assim, fazer o quê? Vai ter que ser. A gente só faz isso porque precisa. Seria bem melhor se não precisasse”, reflete Galego. Achou a resignação no meio do lixo.

PS – E-mails relativos a ajudas aos garotos podem ser enviados para o wsarmento@jc.com.br.

Publicado em 02/11/2013, às 13h56
Jornal do Commercio

5 ideias sobre “No Recife, infância perdida na lama e no lixo

  1. Mais que INCOMODO é ANGUSTIANTE assistir estas IMAGENS e SENTIR o quanto estamos ACOMODADOS em FAZER ALGUMA COISA…. É preciso DETERMINAÇÃO em buscar meios para SOLUCIONAR, MINIMIZAR E HUMANIZAR os setores que têm os mecanismos ESSENCIAIS PARA gerir dias MELHORES A VIDA PLANETÁRIA. ENQUANTO EU ESTIVER VIVA SOU PARTE INTEGRANTE EM BUSCAR JUSTIÇA SÓCIOAMBIENTAL….QUE SEJAMOS ALIADOS E FRATERNOS COMO VIGILANTES EM PROL DA COMUNHÃO COM A NATUREZA DIVINA…. COMO CAMINHANTES PEDIMOS AS FORÇAS CELESTIAIS E HUMANAS PARA CONTINUAR ESTÁ MISSÃO TERRENA… UM ABRAÇO FRATERNO A TODOS OS SERES DIVINOS….

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