Relatório – Grande quantidade de poluição por microplástico prejudica “minhocas do mar”

A ingestão de microplásticos por minhocas aquáticas poderia ter impacto sobre os ecossistemas oceânicos devido à sua importância para a cadeia alimentar

Minhocas aquáticas (Arenicola marina) são amplamente encontradas em todo o território do Atlântico Norte, vivendo em tocas na areia das praias. Foto: Alamy

Minhocas aquáticas (Arenicola marina) são amplamente encontradas em todo o território do Atlântico Norte, vivendo em tocas na areia das praias. Foto: Alamy

Jessica Aldred
theguardian.com, segunda-feira, 02 de dezembro de 2013 17:03 GMT
Traduzido por Natalie Andreoli, Global Garbage Brasil

Pequenos pedaços de lixo plástico ingeridos pelas minhocas marinhas estão prejudicando significativamente a saúde delas e terão um impacto mais amplo sobre os ecossistemas oceânicos, descobriram os cientistas.

As partículas de microplástico, medindo menos de 5mm de tamanho, vêm se acumulando nos oceanos desde 1960 e são agora a forma mais abundante de poluição por resíduos sólidos na Terra.

Dois estudos feitos no Reino Unido, publicados na revista Current Biology, analisaram se estes plásticos microscópicos, quase invisíveis, que se afundam na lama e areia em altas concentrações, estão causando danos a espécies na base da cadeia alimentar, que ingerem esse sedimento durante a alimentação e desempenham um papel ecológico fundamental como fonte de alimento para outros animais.

Usando a minhoca aquática como uma espécie indicadora, o primeiro estudo, da Universidade de Exeter, descobriu que as minhocas que se alimentam nos sedimentos oceânicos altamente contaminados comeram menos e tiveram níveis mais baixos de energia. O segundo estudo, da Universidade de Plymouth, estabeleceu, pela primeira vez, que ingerir microplásticos pode transferir poluentes e aditivos para as minhocas, reduzindo a saúde e a biodiversidade.

A ingestão de microplásticos por espécies na base da cadeia alimentar é um motivo de preocupação, pois pouco se sabe sobre seus efeitos até agora. Muitos outros organismos que têm um comportamento alimentar semelhante, tais como estrelas do mar, pepinos do mar e caranguejos (Uca pugnax), podem ser igualmente afetados.

As minhocas aquáticas são invertebrados comuns amplamente encontrados em todo o território do Atlântico Norte, vivendo em tocas na areia das praias. Elas comem partículas de areia, digerindo quaisquer microrganismos e nutrientes e passando a areia como resíduo através de suas caudas, ​​deixando um rastro característico ou um “trajeto” na praia. A minhoca pode formar cerca de 30% da biomassa de uma praia de areia média, tornando-a uma importante fonte de alimento para aves aquáticas e peixes.

As “minhocas do mar” prestam um outro importante serviço ao ecossistema, revirando grandes volumes de areia, repondo material orgânico e oxigenando as camadas superiores para manter o sedimento saudável para outros animais e microrganismos terem sucesso neste ambiente.

Os microplásticos podem ser feitos a partir de polietileno, tereftalato de polietileno, PVC ou poliestireno. Eles são pequenos demais para serem capturados através do processo de tratamento de esgoto existente e são levados direto para o oceano.

Pellets de plástico em pré-produção, ou 'nurdles' a barlavento  na Ilha South Sokos, Hong Kong. Fotografia: Alex Hofford/EPA

Pellets de plástico em pré-produção, ou ‘nurdles’ a barlavento na Ilha South Sokos, Hong Kong. Fotografia: Alex Hofford/EPA

Eles se dividem em três categorias: matéria-prima chamada “nurdles“, que é derretida para fazer itens de plástico maiores; ou  esferas esfoliantes em produtos cosméticos; ou pedaços maiores de plástico que se degradaram e se fragmentaram em partículas menores ao longo do tempo. Os microplásticos também são encontrados como fibras e têm sido identificados em tecidos sintéticos como o poliéster, que são usados ​​para fazer roupas,  que podem liberar até 1.900 minúsculas fibras por peça de roupa cada vez que são lavados.

Os microplásticos carregam uma mistura complexa de substâncias químicas que têm o potencial de prejudicar as minhocas, mostrou a pesquisa. Muitos materiais plásticos contêm aditivos químicos, tais como plastificantes, corantes e agentes antimicrobianos, que podem lixiviar nos sedimentos e na água do mar. Os microplásticos também concentram em suas superfícies substâncias químicas transmitidas pela água, como pesticidas e detergentes.

Tem havido muita campanha sobre o impacto da grande poluição marinha por plástico, com exemplos amplamente documentados de aprisionamento, ingestão e sufocamento de peixes e aves. Porém, partículas desse tamanho microscópico estão disponíveis para uma gama muito mais ampla de organismos marinhos, que ingerem e retêm essas pequenas partículas de plástico e servem como presa para espécies maiores.

O primeiro estudo, por Stephanie Wright, da Universidade de Exeter, colocou minhocas em tanques de laboratório com diferentes níveis de contaminação por plásticos por um período de até um mês, medindo o seu crescimento, fisiologia, sobrevivência e capacidade de ganhar peso. Ela descobriu que as minhocas aquáticas que se alimentavam de sedimentos que estavam altamente contaminados com microplásticos tinham menos peso do que minhocas em sedimentos limpos e  menos energia para investir em processos-chave, tais como crescimento e reprodução. Esses efeitos podem fazer com que as populações diminuam, com efeitos negativos para os predadores, constatou o artigo.

A alimentação reduzida também significa que o sedimento está sendo menos trabalhado, constatou a pesquisa. A qualidade do sedimento pode baixar, levando a um declínio nas comunidades que vivem nele. Wright disse: “Se as minhocas em ambientes contaminados reduzissem os níveis de alimentação para uma quantidade comparável à observada no laboratório, isto significaria muito menos movimento de sedimentos. Em uma área do tamanho do Mar de Wadden, por exemplo, o movimento do sedimento poderia cair por mais de 130.000 litros por ano”.

“Acreditamos que nosso estudo evidenciou a necessidade de reduzir a quantidade de resíduos de plástico e, portanto, de microplásticos que entram em nossos mares”, diz a Professora Tamara Galloway, da Universidade de Exeter. “Os plásticos são materiais extremamente benéficos. No entanto, se a poluição marinha por plásticos continuar a aumentar, os impactos tais como aqueles demonstrados em nossos estudos de laboratório poderiam ocorrer no ambiente natural. Por isso, é importante que nós evitemos o acúmulo de lixo plástico e microplástico em habitats marinhos, através de melhores práticas de manejo de resíduos e escolhas mais inteligentes nos materiais que usamos.”

Um outro relatório, do Dr. Mark Anthony Browne, sobre o trabalho realizado na Universidade de Plymouth, mostrou que microplásticos podem transferir substâncias químicas nocivas para as minhocas aquáticas, incluindo hidrocarbonetos, antimicrobianos e retardadores de chama. Devido ao seu papel como uma espécie de presa, as minhocas aquáticas poderiam passar esses produtos químicos na cadeia alimentar para predadores de topo, como peixes.

“Esses produtos químicos são persistentes, o que significa que podem se acumular nos tecidos dos organismos e levar muito tempo para se fragmentarem”, disse o professor Richard Thompson da Escola de Ciência e Engenharia Marinha da Universidade de Plymouth, que foi o líder do projeto para o estudo. “Nossos estudos de laboratório fornecem a primeira evidência clara de que os microplásticos poderiam causar danos e mostra que isso pode resultar tanto da presença física de plástico ingerido quanto da transferência de produtos químicos. Nossos próximos passos serão estabelecer todas as implicações desses resultados para organismos em habitats naturais.”

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