Microesferas de plástico: um grande problema no rio Los Angeles

As minúsculas esferas de plástico, comuns em produtos de higiene pessoal e não biodegradáveis, são uma preocupação emergente entre os cientistas e ambientalistas

© Los Angeles Times

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Por Louis Sahagun, Los Angeles Times
25 de janeiro de 2014, 10:00
Traduzido por Natalie Andreoli, Global Garbage Brasil

O cientista Marcus Eriksen entrou no turvo rio Los Angeles na sexta-feira e mergulhou uma rede na água, à procura de um problema.

Eriksen estava procurando por “microesferas”, pedaços de plástico do tamanho de grãos de sal que absorvem toxinas, tais como o óleo de motor e inseticidas, à medida que correm rio abaixo e em direção ao Oceano Pacífico.

As minúsculas esferas de polietileno e polipropileno são uma preocupação emergente entre os cientistas e ambientalistas. As esferas são provenientes principalmente de produtos de higiene pessoal, como esfoliantes faciais e produtos para ducha/banho. No entanto, elas não são biodegradáveis, e, pelo fato de não serem removidas facilmente por estações de tratamento de esgoto, escorrem para o mar e entram na cadeia alimentar.

“O microplástico é agora o principal contaminante no Oceano Pacífico – e mares ao redor do mundo”, disse Eriksen, um cientista do 5 Gyres Institute (“Instituto 5 Giros”), uma organização sem fins lucrativos dedicada à pesquisa de plásticos nos cursos d’água do mundo. “Acreditamos que 80% do microplástico seja proveniente de bacias hidrográficas costeiras, como Los Angeles.”

Eriksen está apenas começando a analisar o Rio Los Angeles para determinar se ele contém microesferas, e, se houver, qual a sua fonte. Na sexta-feira, ele encontrou o que estava procurando em cerca de 10 minutos.

Perto da confluência do rio Los Angeles e do rio Arroyo Seco, cerca de cinco quilômetros ao norte do centro da cidade, Eriksen encontrou algumas algas e sanguessugas se contorcendo, cobertas por pequenos filamentos, cacos e esferas que poderiam ter vindo de inúmeras fontes: águas residuais de lavanderia, sacolas plásticas degradadas, mexedores de plástico, produtos de higiene pessoal.

“O mais assustador é que as esferas absorvem toxinas, em seguida, são consumidas por organismos como mariscos até caranguejos e peixes”, e depois são consumidas por humanos, disse ele.

Os cientistas estão apenas começando a entender os perigos resultantes da poluição por microplásticos nos oceanos do mundo e nos cursos d’água interiores. Em 2012, Eriksen e uma equipe de pesquisadores descobriram grandes quantidades de microesferas e outras formas de poluição por microplástico nos Grandes Lagos. Essas descobertas levaram a formação de uma coalizão dos prefeitos das cidades dos Grandes Lagos para pedir à U.S. Environmental Protection Agency (Agência de Proteção Ambiental dos EUA) para determinar os possíveis riscos à saúde dos ecossistemas lacustres e dos seres humanos.

Um ano depois, o 5 Gyres Institute lançou uma campanha pedindo aos fabricantes de produtos de higiene pessoal para remover as microesferas plásticas e substituí-las por alternativas sem plástico, como cascas de nozes trituradas e sementes de damasco, que se degradam naturalmente. Várias empresas concordaram em eliminar gradualmente as microesferas de suas linhas de produtos.

Em um comunicado, a Johnson & Johnson Family of Consumer Companies, por exemplo, disse que “parou de desenvolver novos produtos contendo microesferas de polietileno.” A empresa espera que, até 2015, já tenha substituído as microesferas por outras alternativas, em metade dos produtos que as utilizam atualmente.

Isso ainda não é suficiente para o 5 Gyres, que está circulando uma petição intitulada “Get plastic off my face and out of my water now!” (Remova o plástico do meu rosto e da minha água agora!)

Em pé, no rio, Eriksen demonstrou o problema. Ele espremeu várias gotas do esfoliante facial Clean and Clear da Johnson & Johnson em um pequeno frasco cheio de água, em seguida, agitou o frasco e filtrou a mistura espumosa através de uma camiseta preta.

No tecido ficaram retidas centenas de minúsculas esferas de plástico brancas, rosas e azuis. “Estimamos que existam cerca de 330.000 microesferas por tubo”, disse ele.

A fonte das esferas que estão sendo carregadas pelo rio Los Angeles ainda é desconhecida. Em tempo chuvoso, o rio retém grandes quantidades de escoamentos de toda a região. Mas na atual seca, 80% do fluxo vem da Donald C. Tillman Water Reclamation Plant (Estação de Tratamento de Efluentes para Reuso de Água), que fica a aproximadamente 19 quilômetros a montante do local de pesquisa de Eriksen, e trata o esgoto das casas dos 800.000 moradores de San Fernando Valley. Os outros 20% vem de inúmeras fontes na área.

Jimmy Tokeshi, um porta-voz do Los Angeles Department of Public Works (Departamento de Obras Públicas de Los Angeles), manifestou que as microesferas não estão vindo da estação de tratamento, a qual envia o esgoto através de uma série de tanques de retenção, digestores, filtros e sanitizantes antes de liberar a água tratada para o rio, a uma taxa de até 102 milhões de litros por dia.

“A cidade de Los Angeles cumpre e/ou excede todos os requisitos da Clean Water Act (Lei da Água Limpa), bem como todos os regulamentos locais, regionais e estaduais de água”, disse Tokeshi. Usando filtros de pano, “Captamos microplásticos que são maiores em tamanho do que 10 mícrons, ou 0,01 milímetros, na Estação de Tratamento de Efluentes para Reuso de Água”, disse ele.

A maioria dos lixos plásticos visíveis que Eriksen encontrou eram muito maiores do que 10 mícrons de tamanho.

Eriksen disse que ainda não sabe qual a origem das esferas. Mas ele disse que suas redes não mentem.

“Usando uma rede de apenas 60 centímetors de largura, por 10 minutos, em um córrego de poucas centenas de metros de diâmetro, capturei dezenas de pedaços de plástico”, disse ele. “Então, é fácil extrapolar que milhões de partículas plásticas fluem através desse canal diariamente.”

Ele virou para olhar rio abaixo, e, acenando com as mãos enlameadas, declarou: “Isso é um problema.”

louis.sahagun@latimes.com

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